Há um longo tempo,
em minha juventude tive que me defrontar com um tema redacional que versava
sobre a morte e seu potencial (aristotelicamente estabelecido) de transmudar
realidades e contextos existencias, alguns bastante avariados, desagradáveis e adversos.
Na verdade, é como reza o brocado que de tanto ser utilizado já se tornou um
clichê: “todo mundo fica bom depois que
morre”. Quem era pérfido e maléfico, torna-se quase um anjo de pureza e
inocência, já quem era corrupto e pervertido, é transformado no campeão
invencível da moralidade e probidade, nossa isso vai longe...
Entretanto,
não é apenas essa alteração de stat des
lebens (status de vida) , de biografia que surpreendentemente a morte
apresenta como parte de seu repertório, não com certeza não! Há o fato
dilacerante do “arrependimento” inepto;
sim deixa esclarecer melhor, visto que o arrependimento como descrito no
conteúdo revelado é uma graça divina resultante da salvação, que como chave
mestra move o pesado portão da salvação, inclusive nossa confissão de Fé reverberando,
repercutido ensinamento bíblico chega a qualificá-lo de arrependimento para
vida: “O
arrependimento para a vida é uma graça evangélica, cuja doutrina deve ser tão
pregada por todo o ministro do Evangelho como a da fé em Cristo”. Notem a mesma expressão usada pelo evangelista
Lucas: “Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos
outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a
Deus? E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus,
dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para
vida.” (At
11.17-18).
Daí que é livre de qualquer debate
que não estamos a tratar dessa qualidade ou tipo desejável de metanoia
(arrependimento) que como “sincera aversão ao
pecado e no pesar pelo nosso pecado pessoal” (Hodge -1997,p.287).
É um fruto saboroso da graça redentiva. Tratamos sim de um tipo de sentimento
ou tendência, de fato uma síndrome de postergação existencial, uma “habilidade”
improdutiva, mas tão natural de deixar para depois, colocar debaixo do tapete
da falta de tempo, o imperativo categórico de exteriorizar palavras de apreço e
carinho a quem se quer bem.
Esse “arrependimento” tardio é por essência
ineficaz, exatamente na sua condição irrenunciável de perder a hora, o time, o
tempo adequado; por isso então, nos priva de demonstrar afeto a quem tão
próximo (ou nem tanto, que importa isso à luz do amor universal) partilhou de
nossa intimidade (quer por alguns minutos, horas, meses, ou anos), que conosco
partilhou dessa experiência humano-espiritual da peregrinação, de caminheiro
existencial. Arrependimento que nos aliena de brindar com a medalha do reconhecimento
a quem nos é caro, de explicitar nossa gratidão pelo ato voluntário e
todo-inclusivo (e que não precisa agregar nada!) de nos trazer à vida, para
essa experiencia toda humana e maravilhosa de viver. Que não nos permiti
agradecer a existência daqueles que foram presentes inestimáveis da graça
divina.
Desse “arrependimento” que na sua
face mais aguda é o embotamento das emoções sadias, e que mostra sua face mais
cruel quando da partida dos que tanto estimamos, que devemos banir para o
exílio do Ostracismo através de atitudes propositivas, afirmativas de não
deixar para depois o ato impositivo e urgente de declarar o amor, a afeição, a
estima; ou seja, não esperar chegar a morte para dizer te amo, para dizer te admiro,
para dizer me perdoe, para dizer você é importante para mim,para dizer tudo que
se deve, a quem tudo merece... Pense Nisto!
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