Pular para o conteúdo principal

Olhado mais a fundo

A terapêutica medicamentosa gera uma esfuziante e quimérica satisfação que tristemente conduz sempre a uma pesada dependência. A verdade é que quem inadivertidademente compra a ideia da felicidade química proporcionada por uma terapêutica epidérmica e sintomatológica está se deixando ludibriar. E de fato quem vende essa ideia, notadamente quem pega o grosso do dinheiro está enganando inescrupulosamente, para ser sincero certas abordagens unilaterais sobre certos transtornos parecem mais uma peça publicitária –

É evidente que não sou reacionariamente contrário ao uso de medicação, em certos transtornos, em alguns níveis de sintomas eles são uma medida ostensivamente necessária, a questão em quadro está em ser ele apresentado primeiro como via clínica exclusiva, segundo, o desprezo por uma abordagem nuclear que trate a causa constitutiva do transtorno em prol de uma série cíclica de experimentação química de controle de sintomas.

Entendo que todos os transtornos psicoterápicos devem estar abertos a uma dinâmica clínica sistêmica e holística, desde o uso de medicações (realmente eficientes e não mercadologicamentemente induzidas) como as multivariadas psicoterapias; isto porque, elas podem favorecer a direção natural por onde a saúde possa-se autorregular, o que as fórmulas químicas não fazem. 

Entretanto, o que vem predominando atualmente é uma forte engenharia de promoção de medicações bancadas pelos poderosos laboratórios e uma medicina cartesiana e autossuficiente, que se apresenta poderosa no controle das anormalidades psicoemocionais, o que de fato não é verdadeiro.

 O que realmente vejo em minha prática clínica é que esse caminho químico, por assim dizer, reprime a dinâmica reativa do organismo julgando como doenças suas crises autorreguladoras, bloqueando-as e impondo em seu lugar um estado antinatural, resultado de manipulação bioquímica. Essa foi a conclusão de Fritjof Capra em livro, O Ponto de Mutação: A atual terapia nesse princípio de intervenção médica, cofiando em forças externas para a cura ou, pelo menos, para o alivio do sofrimento e do desconforto, sem levar em consideração o potencial curativo do próprio paciente (Capra – 1982)

 Qual o resultado disso? A supressão dessa valiosa função de autorregulação, e colocando em seu lugar uma realidade autoforjada tão precária e ineficiente como o são seus reais resultados na vida de tantos que sofrem nos muitos ambulatórios e clínicas psiquiátricas, muito lamentável. SDG.


Dr. Marcus King Barbosa – Psicanalista Clínica, Psicoterapeuta Integratista, Filósofo e Teólogo  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

lições da morte de Sansão

  Pregamos hoje sobre a morte de Sansão ( Shimshon ). Personagem ambíguo esse Sansão. Vida marcada indelevelmente por contrastes; nesse sentido, não muito distinta da nossa. Fato é que Sansão viveu uma vida de profundas negações de sua vocação como nazireu ( n´zer ). Não manteve em concretude seus votos; ao contrário se arrojou em uma busca celerada de experiências e desejos (Jz 14. 8-9; 16.1).  Essa trajetória descomprometida de Sansão ganha seus contornos finais na traição de Dalilá, a medida que em ele revela-lhe seu ‘segredo’, o que lhe fazia o homem poderoso que era, a resposta da sua extraordinária força física, que de imediato é por ela aproveitado e o poderoso Sansão é subjugado, vencido e humilhado com a cegueira e escravidão (16.17-21).  Outrossim, na minha mensagem destaquei que toda vida infiel da Sansão é alterada na vivencia da sua morte. Nela Sansão vive em nível integral uma existência que deveria ter pontuado todo seu existir (16.28-30). Na sua partida, a...

ENTENDENDO E LIDANDO COM O CONSUMO DE COMPRAR

  Nossas ações e reações são resultados de nossos compromissos valorativos, lu seja, nossa indústria de valores. Afirmo então, que nosso comportamento é uma afluente das nascentes dos nossos: desejos, pensamentos, sonhos... Dito isso, o consumo exacerbado, compulsivo, patológico , a tal da “mania” de comprar é fruto de uma reação subjetiva do nosso Self às circunstâncias desagradáveis, situações perturbadoras, relações abusivas, enfim, todas emocionalmente significativas e angustiantes. Aqui estabeleço sem dúvidas que o impulso qualificado de consumir é um mecanismo de defesa do ego . Tem formação clinicamente reativa. Aqui precisamos conceituar o que seja o papel dos pensamentos obsessivos. Estes tem o condão de elevar de maneira catastrófica os níveis de ansiedade dentro do indivíduo, que impõe ao cérebro a execução de vários mecanismos de execução que estabeleçam o alivio da tensão gerada pelos pensamentos obsessivos. Aí entra o consumismo compulsivo por comprar. Desse ...

Possibilidades da angústia na terapia

  Jacques Lacan enunciou que: o paciente não sente angústia por falar na terapia, sente angústia por ter que escutar o que disse . Aqui temos uma grande oportunidade de ouvir no site analítico a instancia do simbólico, na figura do in-consciente e seu trabalho de garimpagem trazendo a superfície o que está no universo submerso de nosso self ou que foi para lá e está retornando. Quais seriam essas oportunidades? Primeiro a possibilidade de exteriorização do saber que não-se sabe a medida que se escuta o que se diz. Ou seja, toda vez que nos expressamos em terapia, estamos diante da oportunidade de trazer à tona conteúdos profundos de nossas profundezas e zonas abissais. Desse modo, a angústia brota não em está falando, mas sim em está se ouvindo, a surpresa da escuta. Segundo a possibilidade de enfrentamento das áreas cinzentas nebulosas de nosso caráter , sorvendo verdadeira transformação que ocorre quando somos capazes de encarar aquilo que emerge desse processo, enfrentando ...