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Como ser um filho de Deus?

 

Compreender o que a Palavra afirma na tradição do novo testamento (NT) sobre ser filho de Deus impõe o entendimento de que esse termo é polissêmico apontando para vários sentidos. Quais seriam esses sentidos? Primeiro filho de Deus como o homem criado (Lc 3.38). Segundo filhos de Deus como os anjos (angelos, mal’ak) criados (Jó 1.6; 2.1; 38.7). Terceiro filhos de Deus como a nação de Israel (Dt 14.1; Êx 4.22).

Entretanto, a um outro sentido para filhos de Deus que não tem relações com as já apresentadas e apresenta um caminho bem diferente. Ser filho de Deus nessa acepção tem conexão conceitual direta com o pacto da graça e uma relação diferenciada com Deus por via da redenção.

Dessa modo, ser filho de Deus não é algo inato que brota de uma relação étnica, criacional, mas um evento que ocorre dentro de um âmbito condicional e seguindo certos marcadores processuais.  Quais são eles? O Primeiro deles é que ser filho de Deus é fruto da autoridade (eksousían) divina. Ser filho de Deus é nascer espiritualmente. É uma ressurreição espiritual (Jo 5.24-25; Ef 2.1-3). Essa filiação proveniente do novo nascimento é resultado de uma ingerência divina, sem qualquer agenciamento humano: “12 Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que creem no seu Nome; 13 os quais não nasceram do sangue,7 nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12-13). Falando desse nova realidade de pertencimento a família de Deus destacou Joel R. Beeke: Quando nascemos de novo, Deus nos livra da família escravizadora de Satanás e, por sua estupenda graça, transfere-nos para a filiação do Pai (Beeke – 2008, p.61).

Em segundo lugar ser filho de Deus é fruto da adoção divina. Ou seja, a vida espiritual transcendente (regeneração) que ocorre simultaneamente com a resolução da nossa situação legal diante de Deus na justificação (Rm 3.21-26; 5.1-2) nos torna filhos de Deus, nos incorpora na família divina e no reino de Deus, só que por meio do arranjo divino da adoção. Por que isso? Simples, porque só existe um filho de Deus por geração eterna, que é Jesus, o filho unigênito (monogenoûs) de Deus: “14 E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Essa palavra grega, que está por trás de Unigênito do Pai significa "filho único" num sentido qualitativo e singular, ou seja, ser filho como Jesus é impossível para qualquer filho de Adão (Cl 2.9). Não se podendo confundir regeneração com divinização que muitas teologias e igrejas tem feito em contínuo movimento de orientalização do evangelho capitaneado pelo movimento de crescimento da igreja e o G-12 para dar alguns exemplos.

De maneira que, a nossa filiação só poderia ocorrer pelo processo da adoção divina, na qual Deus nos considera, por conta da obra de Jesus, seus filhos. Segundo N.T. Wright: Isso quer dizer, naquela época e hoje que você não precisa em determinada família nem um local específico do mundo. Deus quer que as pessoas de todos os lugares nasçam de uma nova maneira, nasçam na família que ele começou por intermédio de Jesus (Wright-2020, p.18).

Daí que, essa adoção é levada a efeito pela atuação do Espírito Santo que insere o pecador convertido na dimensão da família divina, tornando-os herdeiros de Deus juntamente com Cristo: “15 Pois vocês não receberam um espírito que os torne, de novo, escravos medrosos, mas sim o Espírito de Deus, que os adotou como seus próprios filhos. Agora nós o chamamos “Aba, Pai”, 16 pois o seu Espírito confirma a nosso espírito que somos filhos de Deus. 17 se somos seus filhos, então somos seus herdeiros e, portanto, co-herdeiros com Cristo. Se de fato participamos de seu sofrimento, participaremos também de sua glória.” (Rm 8.15-17). Vejam que o texto deixa patente que ser filho efetivamente depende desse exercício testemunhante do Espírito habilitando a nós como filhos falarmos o nome do nosso Pai de um jeito pessoal e íntimo que só filhos podem falar. Paulo ainda vai tratar dessa obra do Espírito em outra carta salientando que por meio dessa intervenção em nós podemos usufruir de uma liberdade autêntica e o pleno senso da irrevogável paternidade divina (Gl 4.6-7). Agora não se precisa dizer que tudo isso só é viável e executável por meio da fé (Gl 3.26) como destacou D.A. Carson: Para aqueles que receberam a Palavra, para aqueles que manifestaram tal, a Palavra deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus fé (Carson-2007, p.126).

Quais os desdobramentos, os efeitos de sermos filhos de Deus? O primeiro é a necessidade de viver uma vida no mundo que indique, evidencie essa filiação divina. Viver um ser-no-mundo que aponte para essa proximidade e parentesco. Paulo chama isso de imitação de Deus (Ef 5.1-7). João trata desse tema em sua primeira carta e lá ele define como prática da justiça (poiwn dikaiosynên): “10 Assim, podemos identificar quem é filho de Deus e quem é filho do diabo. Quem não pratica a justiça e não ama seus irmãos não pertence a Deus.” (1 Jo 3.10).

Uma segunda implicação inegociável de ser filho é está suscetível a disciplina divina (Hb 12.4-11). Comentando a disciplina de Deus sobre seus filhos sublinha Benist M. Kanning: “É desse modo que um pai amoroso trata seus filhos legítimos.”. E porque somos seus filhos, ele nos treina, nos disciplina. Infelizmente essa é uma verdade que as vezes é negligenciada lamentavelmente. Ser filho quer dizer que estamos debaixo dos valores e regras do nosso Pai, debaixo de sua autoridade. Não está debaixo dessa disciplina é ser rebelde, um mal filho, entretanto, os bons filhos aceitam e não se revoltam contra o Pai; ao contrário, amadurecem com a sua correção.

Neste ponto precisamos concluir deixando mais que patente que ser filho não é algo que todo ser humano nasce, mas que é um evento que segue certos passos e marcadores estabelecidos pela Palavra. Portanto, precisamos declarar que ninguém nasce filho de Deus nesse sentido, mas renasce, ressuscita espiritualmente filho de Deus por meio da fé. Dessa forma, ser filho só é possível nascendo de novo, sendo convertido, selado e recebendo o testemunho interior do Espírito e, por fim, glorificado na ressureição física (Jo 3.5; Rm 8.11). SDG.

Rev. Marcus King Barbosa

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