Pular para o conteúdo principal

EM DEFESA DO LUTO


Vivemos em uma era tão narcísica, ensimesmada que não admite pertinência de nenhum tipo de agenciamento, experiência ou relações dentro do âmbito histórico- existencial que demande o menos desprazer, dor ou sofrimento. Não é, pois, sem causa que temos presenciado um tempo de profundíssima crise e tensionamento socioexistencial que Bauman defini como hipotecamento do futuro: buscar a felicidade numa sociedade de mercado de consumo caracterizada por marcas, logos e lojas exige que ela seja hipotecada. (Bauman – 2008: p.22). E o preço da hipoteca é muito caro, impagável na verdade.

A realidade é que sob a ingerência do narcisismo dinâmico a modernidade líquida hipotecada tem reinterpretado toda a realidade existencial redimensionado, redefinindo institutos, experiências e relacionamentos a partir do paradigma do principio do prazer e da felicidade absoluta. Um desses institutos socioexistenciais revisados é o luto. E luto aqui entenda como a dramática resposta emocional-afetiva a dor e o sofrer da perda de um ente querido ou alguém muito íntimo. Essa vivencia do luto tem sido uma experiência duramente combatida na sociedade do entretenimento e do autogratificação. Nessa sociedade não há espaço para ele.

De fato não há lugar em uma sociedade narcisicamente orientada para dor, sofrimento ou desprazer! Como não se pode negar a perda, sob pena de acusação de grave patologia psiquiátrica, se nega então o direito ao luto por meio do entorpecimento medicamentoso; ou seja, se entope o enlutado de remédio para que ele não ‘sofra’. Infelizmente, não se enfrenta mais a realidade, transformações, alterações e revelações do luto. O que se faz é fechar a porta do entendimento e das emoções para seu ensino e legado por meio do anestesiamento da existência.

Porém, será que a vivencia do luto é tão famigerado assim, que devemos extirpar, defenestrar da experiência normal do ser humano¿ Será que ele não nos comunica algo vital para nossa jornada ao ponto de ser uma vivencia necessária¿ Penso que sim e minha convicção nesse pequeno ensaio é que o luto precisa ser defendido na sociedade de consumo e empreendo esse roteiro através de quatro eixos argumentativos:

1. O luto indica o nível de significado daquele que partiu de sua vida

O luto é um termostato do índice de afeto envolvido na relação que se acabou em caráter definitivo. O sofrimento, a dor do luto são os elementos manifestadores do significado peculiar que aquele ente querido representava e o quanto sua ausência será sentida.

Nesse sentido o luto revela o lugar emocional-afetivo que ocupava aquele que se foi.E isso mesmo em sentido reverso; isto é, sofremos também por aquele íntimo que nos feriu e isso faz parte de nossa ambiguidade indecifrável.

A dor do luto é indicativo do quantum de afeto estava empregado naquela relação que deixou de existir. Talvez afetividade que nem imaginávamos estar ali envolvida que só iremos nos aperceber quando da experiência própria do luto.

2. O luto revela que nossos relacionamentos são temporalmente precários

Essa é uma lição dura que o luto nosso ensina. Aqueles que amamos não são eternos em nossa vida. Parece óbvio, mas não é por que a nossa distorção da vida nos faz (mesmo em nível inconsciente) lidar com quem amamos como se eles fossem viver todo tempo conosco. Anselm Grün destaca o problema da leitura embaçada da existência quando aborda a forma estranha de ver a vida por parte do depressivo: O primeiro passo é ver a sua vida sob um novo enfoque. Afinal, uma característica básica da depressão é a visualização distorcida do mundo à sua volta (Grün -2018:53). Bem, em nível um pouco menor do que o  depressivo todos nós temos visões distorcidadas da vida, que o luto pode resolver, se não completamente, pelo menos de maneira satisfatória.

A pedagogia do estado fugaz dos que amamos é muito salutar para nossas relações. Imagine se você soubesse que quem você ama só teria uma semana de vida, como seria essa semana? E como foi a semana com sua esposa? E com seu filho? Seu pai? Entenderam?

3. O luto nos faz enxergar adequadamente o valor  da vida e das relações

É um clichê o que irei dizer, mas não menos verdadeiro por isso, o fato  de que só mensuramos o real valor de algo ou alguém quando perdemos! Em relação ao morte de  entes queridos isso se traveste de uma realidade esmagadoramente singular e o luto sublinha isso. Como banalizamos a vida sua beleza e complexidade única, os relacionamentos e sua importância para nossa história e saúde existencial. A questão é que só somos persuadidos disso, muitas vezes, por uma perda inesperada e igualmente devastadora.

E posso afirmar sem receios que é  na pós-modernidade e sua liquidez, instantaneidade e falta de objetivo a longo prazo que esse processo de banalização é sentido. Na verdade nosso maiores problemas surgem dessa fonte como escreveu Zygmunt Bauman: As raízes dos problemas morais pós-modernos descedem do caráter episódico dos objetivos de vida (Bauman – 2011:19).

Por que relativizamos tanto a existência¿ Entendo que é da equivocada percepção de que viveremos eternamente, e aqueles que nos relacionamos nuca os perderemos, o velho complexo de Deus! O luto desmascara a falácia desse pensamento e a natureza enganosa desse tipo de sentimento. Essa vida e as pessoas que nela vivem são efêmeras como a passagem de som, Pedro diz que  somos “como a névoa”.

4. O luto nos instiga a passar a limpo nossos relacionamentos

Quanta pendência nós toleramos em nossas relações? Quanta coisa mal resolvida e mal vivida. Como somos apáticos diante da tarefa de gestar a qualidade existencial de nossos relacionamentos, como somos ilusionista nesse aspecto!

Essa forma de encarar os afetos é um subprodutos da compreensão de que teremos tempo suficiente para em determinado momento passar em revista tal relação. Não sei se isso se dá a nível consciente, provavelmente não, mas a realidade é que esse tipo de discernimento falho responde por muitos descaminhos na vida conjugal, familiar,enfim, e muita gente boa já caiu nesse conto do vigário.
O luto, portanto,  é um grito altissonante:

 - isso não é verdade! Você pode perder quem ama a qualquer instante então resolva as pendências e viva com ele o melhor tipo de vida que puder.  

  Dessa maneira dramática o luto arranca as vendas que temamos colocar. Ele nos qualifica, em certo sentido, a perceber e enfrentar as mazelas que enfermam nossas relações. Por assim dizer o luto levanta o tapete e sacode a poeira ali escondida, ocultada!

Termino aqui minha singela apologia a necessidade do luto. Minha expectativa é que você que me acompanhou até o momento releia o luto e veja-o sob novo enfoque. Não que isso irá fazer a dor desaparecer, infelizmente não, ela é inerente a ele. Mas você irá concerteza, no tempo certo, emergir do luto (sim porque o luto passa) uma pessoa melhor, mas madura, lúcida e consciente da vida, da importância invulgar das  pessoas  que estimamos e das próprias fragilidades, suas e delas. SDG

Rev. Marcus King Barbosa – Teólogo, Psicanalista Clínico, Filósofo da Cultura e Pastor Reformado


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ENTENDENDO E LIDANDO COM O CONSUMO DE COMPRAR

  Nossas ações e reações são resultados de nossos compromissos valorativos, lu seja, nossa indústria de valores. Afirmo então, que nosso comportamento é uma afluente das nascentes dos nossos: desejos, pensamentos, sonhos... Dito isso, o consumo exacerbado, compulsivo, patológico , a tal da “mania” de comprar é fruto de uma reação subjetiva do nosso Self às circunstâncias desagradáveis, situações perturbadoras, relações abusivas, enfim, todas emocionalmente significativas e angustiantes. Aqui estabeleço sem dúvidas que o impulso qualificado de consumir é um mecanismo de defesa do ego . Tem formação clinicamente reativa. Aqui precisamos conceituar o que seja o papel dos pensamentos obsessivos. Estes tem o condão de elevar de maneira catastrófica os níveis de ansiedade dentro do indivíduo, que impõe ao cérebro a execução de vários mecanismos de execução que estabeleçam o alivio da tensão gerada pelos pensamentos obsessivos. Aí entra o consumismo compulsivo por comprar. Desse ...

lições da morte de Sansão

  Pregamos hoje sobre a morte de Sansão ( Shimshon ). Personagem ambíguo esse Sansão. Vida marcada indelevelmente por contrastes; nesse sentido, não muito distinta da nossa. Fato é que Sansão viveu uma vida de profundas negações de sua vocação como nazireu ( n´zer ). Não manteve em concretude seus votos; ao contrário se arrojou em uma busca celerada de experiências e desejos (Jz 14. 8-9; 16.1).  Essa trajetória descomprometida de Sansão ganha seus contornos finais na traição de Dalilá, a medida que em ele revela-lhe seu ‘segredo’, o que lhe fazia o homem poderoso que era, a resposta da sua extraordinária força física, que de imediato é por ela aproveitado e o poderoso Sansão é subjugado, vencido e humilhado com a cegueira e escravidão (16.17-21).  Outrossim, na minha mensagem destaquei que toda vida infiel da Sansão é alterada na vivencia da sua morte. Nela Sansão vive em nível integral uma existência que deveria ter pontuado todo seu existir (16.28-30). Na sua partida, a...

Pense e respire um pouco antes de julgar ações públicas dos outros...

É interessante perceber como não conseguimos nos desvencilhar dos fortes laços que sufocam nossa compreensão mais alargada das ações do outro, notadamente, dos investidos de repercussão ou autoridade pública. Facilmente enveredamos por nossas próprias elucubrações mentais, expertise emocional e imposições contextuais próprias num caminho de juízo de valores das ações notórias dos outros sem perceber que muitas vezes simplesmente caímos em uma perigosa armadilha, justamente por isso o messias sentenciou “não julgueis para que não sejais julgados” (Lc 6.37). Quais seriam esses perigos que envolvem uma avaliação de ações alheias que deveríamos ter muito cuidado em notar, identificar e separar ao empreendermos qualquer tipo de valorização dessa monta? Penso que seriam os jogos de compreensão e linguagem (para me manter nas relações hadameriana/wittgesteriano): o jogo hermenêutico, o jogo ideológico e o jogo dialético. E tristemente muitas das nossas avaliações do comportamento público do o...