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Uma sociedade trabalhosa

 O final dos tempos (esxátais hêmárais) será marcado por uma temperatura existencial excepcionalmente tenebrosa. Paulo olhando essa quadro escatológico apresentado pelo Espírito estabelece algumas marcas que nos auxilia melhor em nossa análise deste retrato do fim. Paulo destaca de tal sorte a solenidade, por assim dizer, da perversidade destes tempos que ele irá designá-los de perigosos (xalepoi). Esse termo traz o significado de algo que sequestra a força, a energia. Com isso o apóstolo está maximizando o impacto desse conjunto de pensar, sentir e viver na vida e relacionamentos nos finais dos tempos criando uma imagem comprometedora da sociedade nesse período (2 Tm 3.1-9).

Paulo faz o arranjo dessa listagem por meio de uma tríade retórica: tempos egocêntricos, tempos hedonistas e tempos de aparências.

 

Um tempo de egocentrismo

Nesse primeiro enquadro o apóstolo sublinha a natureza egoísta e narcísica da era do fim. Segundo ele esse egocentrismo narcisista mostra sua face por meio de uma tendencia relacional de exploração e abuso do outro; isto é, uma época de abusos e toxidades: “2 Pois os seres humanos serão egoístas, avarentos, orgulhosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, 3 sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem,” (vs-2-3). Nesse período essas relações serão voltadas para dentro, para o âmbito de suas próprias necessidades e voracidade. É como digo, pessoas narcísicas são um buraco negro que tudo devora: vivacidade, energia, enfim. Na percepção de N.T. Wright existem terríveis consequências no narcisismo para a dinâmica das relações: Mas, especialmente, devemos notar o efeito que um comportamento como esse - narcisista, ganancioso, arrogante, abusivo, acusador e assim por diante – tem nas pessoas que os adotam, e depois o efeito que isso tem sobre a vida daqueles que convivem com essas pessoas (Wright – 2020, p.137).

Um tempo hedonista

Na segunda estrutura desses vícios comportamentais que saturariam a sociedade do fim, o apóstolo destaca que esse tempo será marcado por uma desorientação orientativa existencial refluxo de uma busca ávida, obsessiva e compulsiva pelo prazer. Para Paulo haverá um sério vírus no GPS diretivo do homem no final dos tempos colocando o prazer na vitrine central do propósito do existir. E o pior, esse prazer não é puramente material, mas acima de tudo, a ideia do prazer. Ou seja, os tempos são difíceis porque a linha de significado e referência foi alterada e redefinida para ser utilizada manipulativamente pelo desejo (epithumías) como deixou perceber Tiago quando o aproxima da núcleo do ato de pecar e da tentação como contexto antecipatório: “14 Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por esse iludido e arrastado.15 Em seguida, esse desejo, tendo concebido, faz nascer o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte.”(Tg 1.14-15). A mente e emoções sabotados pelo desejo frustram a felicidade real, lançando em picos de prazer que obstruem e sequestram o sentido da vida. Aí é óbvio que se fica refém de todo tipo de crise: angústias, ansiedades, depressões, enfim, que solapam toda a saúde emocional e rouba toda a vida energética. Sobre a relevância do sentido escreveu Viktor Frankl: A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida (Frankl – 2022, p.124). Paulo mostra esse hedonismo egoísta ilustrado numa tendencia de submissão aos reclames do desejo que fazem essas mulheres em questão ficarem de um alado para o outro sem sossego: “6 Pois entre estes se encontram os que se infiltram nas casas e conseguem cativar mulheres tolas, sobrecarregadas de pecados, que são levadas por todo tipo de desejos,” (v-6).

Um tempo de aparências

Nesse ponto final de sua argumentação Paulo finaliza direcionando sua artilharia para a característica marcante dessa época de produzir disfarces, de construir narrativas. O apóstolo aqui usando sua maestria sui generis denuncia essa cilada de uma vida camuflada e saturada de aparência e engano voltado para a vida espiritual, para vida de relacionamento com Deus. Paulo aqui não engana ninguém. O final vai ser assustadoramente saturado de narrativas e falsas verdades, aparências e ilusões de toda sorte e qualidade. E essa realidade paralela vai privilegiar a espiritualidade, assumindo uma feição, como disse Paulo “forma de piedade”. Quando o autor fala de piedade (eusebéia) aqui ele está se referindo a uma relação de intimidade e devoção com Deus que nos traz o senso de sua majestade em todas as áreas de nossa existência.

Desse modo entendemos a denúncia do apóstolo. Muitos estavam tentando forjar esse comportamento piedoso, construindo uma alternativa, uma falsa piedade (appearance of godliness), uma camuflagem pomposa de espiritualidade, de intimidade com o Eterno, mas que falhava no ponto mais importante e significativo, no seu poder, na dimensão experimental (dúnamin autês): “5 tendo forma de piedade, mas negando o poder dela. Fique longe também destes.” (v-5). Por que eles não conseguirão? Porque essa piedade aqui colocada em perspectiva por Paulo só pode ser realmente vivida pela intervenção do Espírito Santo como executor da nova vida, dos efeitos da nova era redimida (olam habá) da qual a piedade é uma manifestação. Ser piedoso não é resultado de hábito ou habilidade religiosa, mas é consequência do poder celestial que reveste e habilita (At 1.8; 2 Tm 1.7).

Dessa maneira, a única via desses personagens era forjar uma falsa espiritualidade, um papel de homem de Deus, muito embora, a ausência de virtude real, de pensamento saudável comprometa todo o papel deixando como flagrante a sua impostura, como o próprio apóstolo aponta: “7 que estão sempre aprendendo e nunca conseguem chegar ao conhecimento da verdade. 8 E do mesmo modo que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens que têm a mente totalmente corrompida, reprovados quanto à fé.” (vs-7-8). Segundo Ray Van Neste: As pessoas a quem Paulo faz referência dizem conhecer a Deus, mas não há evidências da obra do Espírito em suas vidas.

Portanto, esse é o quadro perturbador que a Palavra nos revela no magistério apostólico e inspirado de Paulo. Fica mais que óbvio que o mundo não irá mudar, ele certamente piorará. O texto de Paulo mostra que será uma vida sufocante e uma pressão devastadora. Temo que essa realidade profetizada pelo apóstolo está muito próxima de nós. O que fazer? Mantermo-nos firme e perseverantes olhando para nosso Mestre e Senhor (Hb 10.37-39). SDG.

Rev. Marcus King Barbosa

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