A
primeira coisa que vem em minha mente ao pensar no transtorno de
personalidade borderline é o excesso, o tangenciamento do limite.
Sinceramente excesso é uma boa metáfora para os borders, visto que
há um ultrapassar o limite em tudo o que fazem, dizem, sentem. Os
borders são ‘inesquecíveis’, sobretudo, para quem convive com
eles de muito perto ou intimamente. Penso ser pertinente a observação
da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva: Os borders (vamos
chamá-los assim) são tão intensos que a vida com eles pode ser
tudo, menos tranquila. Há um excesso em tudo que dizem e fazem, no
mais puro estilo exagerado de sentir, pensar e agir. Eles sempre
marcam a vida das pessoas com quem convivem, especialmente se esta
convivência for íntima (Silva- 2010).
Antes de compreender melhor o que é o transtorno de
personalidade borderline é impositivo entendermos preliminarmente o
que é personalidade. Pode-se afirmar em sentido lato que a
personalidade é o conjunto interativo de padrões de comportamento,
pensamento e sentimentos que identificam, do ponto de vista da
inserção na existência o indivíduo à medida que esse se
diferencia do outro.
O DSM-V identifica a personalidade por meio de traços,
que por sua vez são:
padrões persistentes de percepção, de
relacionamento com e de pensamento sobre o ambiente e si mesmo que
são exibidos em uma ampla gama de contextos sociais e pessoais
(DSM-V, 2015, p.691). Esses traços são aquilo compreendemos como
nossa personalidade, dito de outra forma, esses traços são aquilo
que somos, é por assim dizer, nossa digital existencial.
Daí que o como existimos ou vivemos a vida é marcado
em alto relevo por certa instabilidade adaptativo-relacional; ou
seja, nenhum de nós está completamente confortável na existência,
manifestamos certos padrões de comportamento e sentimentos diante da
frustração, da pressão, das perdas, enfim, que saem um pouco (ou
muito) do socialmente aceito, do coletivamente pactuado. Isso em si
não caracteriza ninguém com um transtorno de personalidade. Porém,
quando essas instabilidades são persistentes e intensas construindo
um padrão existencial que dificulta significativamente a habilidade
natural de adaptação ao seu meio social estamos diante de um
transtorno de personalidade. Escreveu em seu livro, Manual de
Clínica em Psiquiatria o doutor Antonio Matos Fontana o seguinte
sobre transtorno de personalidade: Transtorno específico de
personalidade uma perturbação severa da constituição
caracterológica do indivíduo e suas tendências comportamentais,
abrangendo diversas áreas da personalidade e geralmente estando
associado à evidente ruptura pessoal e social (Fontana –
2006).
Dessa maneira é dentro da esfera dos transtornos da
personalidade que encontramos o transtorno de personalidade
borderline (TPB). O TPB pode ser definido como um severo quadro de
instabilidade e disfunção nas esferas afetiva, comportamental e
interpessoal que se manifesta, notadamente em uma incapacidade de
lidar com a separação real ou imaginária. Ana Beatriz descreve o
TPB da seguinte forma: Borderline
significa fronteiriço ou a linha que compõe a margem. Por sua vez,
a margem pode ser definida como a faixa que limita ou circunda alguma
coisa. A própria denominação, mesmo que em outra língua, já nos
leva a deduzir que o funcionamento mental border guarda relação
estreita com o substantivo limite. Os borders vivem literalmente “nos
limites” (Silva- 2010).
Seguindo essa trilha vemos que DSM-V dá um tônus
particular para essa inabilidade border de tratar a rejeição, o
abandono, imprimindo uma rubrica de característica fundamental para
esse transtorno: Indivíduos com o transtorno da personalidade
borderline tentam de tudo para evitar abandono real ou imaginado. A
percepção de uma separação ou rejeição iminente ou a perda de
estrutura externa podem levar a mudanças profundas na autoimagem, no
afeto, na cognição e no comportamento (DSM-V, 2015, p.691).
De fato é por esse comportamento exagerado, sem
limites, oscilante e instável, profundamente dependente da aprovação
alheia de seus sentimentos, aparência, desempenhos, enfim, que os
borders são mais conhecidos. A verdade é que muitas pessoas sofrem
de TPB, mas que são por conta do diagnóstico equivocado,
diagnosticadas com outros transtornos, tais como: TDAH, depressão,
humos bipolar, entre outros.
Os borders em sua fragilidade emocional acabam
envolvendo-se em relações intensas e instáveis que exaspera o
sentimento crônico de vazio e repetidas crises emocionais. Essas
crises sublinham explosões de raiva, irritabilidade, desespero ou
pânico, intercambiado por períodos de serenidade e satisfação.
Uma metáfora para o modo de ser de um borders é a montanha- russa
cheia de loopings. Os borders por assim dizer vivem em altos e baixos
emocionais. Para a psiquiatra Ana Beatriz o problema dos borders é
que eles: capotam nas emoções,
no excesso de sentir. Tal excesso de sentimentos acaba por fazê-los
perceber a realidade com tons exacerbados, seja em situações que
geram emoções positivas ou negativas. Essa hipérbole de afetos
desencadeia uma intensa instabilidade reativa do humor, grande
dificuldade de autopercepção (incluindo a autoimagem e autoestima)
e uma impulsividade tão forte que, muitas vezes, se manifesta em
verdadeiros acessos de raiva e fúria (Silva- 2010).
Do que vimos até aqui quantos borders nós conhecemos¿
quantas pessoas na verdade estão dilapidando assustadora e
intensamente seu patrimônio relacional por conta desse transtorno e
que por falta de diagnostico são tratadas de maneira inadequada,
quando não preconceituosa¿ É necessário entendemos esse modo de
existir borders que envolve muitas pessoas no Brasil e talvez pessoas
que nos são íntimas e caras. É também imprescindível uma
abordagem assertiva e correta desse transtorno de maneira que aqueles
que o vivenciam sejam não apenas esclarecidas por meio de um
diagnóstico preciso, profissional e humano; mas que, sobretudo,
adequadamente tratadas, assistidas e cuidadas. SDG.
Rev. Marcus King Barbosa – Psicanalista Clínico,
Psicanalista Clínico, Teólogo, Filósofo da cultura e Aprendiz de
discípulo
Comentários
Postar um comentário