A
salvação é obra da graça de Deus. Ela é efetivada por todas as pessoas da
trindade sendo que o papel de executor desse pacto redentivo coube ao Espírito
Santo. Essa salvação que Cristo com sua obra expiativa deixou efetiva (Hb
10.12-14) só se torna efetiva e concreta na vida do discípulo por meio da fé (Ef
2.8).
Entretanto,
essa fé não é uma crença histórica, uma fé que passa por nossa mente ficando
apenas no universo teórico, conceitual, como dizia João Calvino: “passando
voando pelo cérebro”. Aqui a expressão "passando voando pelo
cérebro" significa algo que é rápido, transitório ou efêmero na mente de
alguém. Geralmente, sugere que uma ideia ou pensamento que passa rapidamente
pela mente sem deixar uma impressão duradoura. Essa expressão é usada para
descrever algo que não é profundamente considerado ou internalizado.
Entretanto, não é assim com a fé salvadora, como ficou cunhada na teologia
reformada, essa envolvia o homem de modo integral, sua mente, suas emoções,
seus sentimento, suas escolhas (notitia, assensus e fidúcia).
Essa fé, evidentemente, demonstra evidências concretas, experimentais, ou seja,
boas obras (kala erga). O que são essas boas obras? Tudo aquilo
que brota da vida regenerada, nascida do alto e é voltada para a glória de
Deus, edificação de si mesmo e dos outros e evidencia a conversão, a fé e a
justificação. Isto é, as boas obras referem-se a ações e comportamentos
que emanam de uma transformação interior (Inner Transformation)
originando-se em uma vida regenerada e espiritualmente renovada. Essa
regeneração é entendida como um renascimento espiritual, um novo nascimento
proveniente de uma influência divina. Quando alguém experimenta essa
transformação, as boas obras se tornam uma expressão natural desse novo estado
de ser. Lutero em seu texto sobre boas obras, a defini da seguinte maneira: Boa
obra é, em primeiro lugar, o que Deus fez e faz em Cristo por nós e em nós
(Lutero – 2000). Tiago afirma que sem boas obras a fé não tem vida espiritual
para se sustentar e não pode conceder real salvação: “14 Meus irmãos,
qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Será que
essa fé pode salvá-lo? 15 Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa
e necessitando do alimento diário, 16 e um de vocês lhes disser: “Vão em paz!
Tratem de se aquecer e de se alimentar bem”, mas não lhes dão o necessário para
o corpo, qual é o proveito disso? 17 Assim, também a fé, se não tiver obras, por
si só está morta.” (Tg 2.14-17) J.I. Parker destaca essa correlação da
fé, que ele chama, fé justificadora e as boas obras: Boas obras (atividade
de serviço a Deus e a outros) não decorrem de nossa profissão de fé, estamos
ainda crendo com a cabeça, não com o coração: em outras palavras, a fé
justificadora (fidúcia) ainda não nos pertence (Parker – 1999). Aqui vemos
que Parker na sua referência à "fé justificadora" (fidúcia) destaca o
aspecto da fé que vai além do mero conhecimento intelectual e se traduz em
confiança pessoal e compromisso profundo. Portanto, ao asseverar que essa fé
justificadora ainda não nos pertence sugere que há um espaço para um
amadurecimento e aprofundamento da relação pessoal com as verdades da fé. Em
outras palavras, a transformação interna, caracterizada pela verdadeira
fidúcia, ainda está em processo, e a simples profissão de fé não é, por si só,
indicativa desse estágio mais avançado de desenvolvimento espiritual.
Na
verdade, segundo a proclamação de Cristo as boas obras deveriam se manifestar
de forma esplendorosa diante do mundo para que Deus fosse glorificado por meio
delas. Quero dizer que a ideia centra do kerigma de Jesus era que seus
seguidores deveriam impactar significativamente o sistema mundano caído: “16
Da mesma forma, suas boas obras devem brilhar, para que todos as vejam e louvem
seu Pai, que está no céu.” (Mt 5.16). Pedro reafirma esse ensino em sua
primeira carta: “12 Seja exemplar o vosso comportamento entre os gentios,
para que naquilo que falam mal de vós, como se fôsseis pessoas que vivem
praticando o que é mau, ao observarem as vossas boas obras, glorifiquem a Deus
no dia em que receberem a sua revelação” (1 Pe 2.12). Esse
entendimento teológico enfatiza a importância de uma fé que vai além do
intelectualismo superficial, buscando uma entrega genuína do coração e uma
confiança profunda em Deus, resultando, assim, em boas obras que fluem
naturalmente dessa experiência divina vivida e internalizada.
Outrossim,
para Paulo as boas obras são resultado, consequências materiais da nova vida regenerada
em Cristo. A lógica é que não somos salvos pelas boas obras, mas para produzir
as boas obras (Ef 2.10). Elas fazem parte da ética (ethikê) do
reino, de modo que não podemos servir a Cristo sem produzi-las (1 Tm 2.10; 5.10;
6.18) até porque elas não podem sem ocultadas, escondidas, mas se tornam
evidentes em nossas interações e ministérios (1 Tm 5.25).
Dessa
forma as boas obras são o propósito histórico da comunidade espiritual redimida
por Jesus. Sua vontade é que ela se consagre de forma irrestrita a produção de
toda essa atividade que exterioriza sua identidade redimida (Tt 2.14). Paulo
chega a dizer que a produção das boas obras é indispensável, um sine qua non,
da fé salvífica: “8 Essa é uma afirmação digna de confiança, e quero que
você insista nesses ensinamentos, para que todos os que creem em Deus se
dediquem a fazer o bem. São ensinamentos bons e benéficos para todos.”
(Tt 3.8). Sobre isso comentou Warren Wiersbe: No entanto, há mais um elemento envolvido:
deve-se viver de modo piedoso e "[ser] solícitos na prática de boas
obras" (Tt 3:8). A única evidência que o mundo incrédulo tem de que
pertencemos a Deus é nossa vida de piedade. (Wiersbe-2022). Na verdade,
inclusive as boas obras é um elemento fundamental em nossa comunhão como
comunidade de discípulos, no sentido de que sem elas não conseguiríamos cumprir
nossos deveres e compromissos como irmãos e membros dessa universal família (Hb
10.24-25).
Portanto,
a importância das boas obras transcende a esfera meramente individual,
revelando-se como alicerce fundante na comunhão de uma comunidade de discípulos
(Gemeinschaft der Jünger). Elas não apenas expressam o amor ao
próximo, fortalecem os laços entre os membros e testemunham os princípios da
fé, mas também desempenham um papel crucial no cumprimento coletivo de deveres
e compromissos. A prática contínua de boas obras não só enriquece
espiritualmente a comunidade, mas também fortalece sua presença histórica como
parte explicita do reino de Deus, onde o compromisso mútuo e a busca pelo bem
comum são fundamentais para o florescimento de sua identidade e missão. Soli
Deo Gloria.
Rev.
Marcus King Barbosa
Comentários
Postar um comentário