Pular para o conteúdo principal

Entender e tratar a procrastinação

 

A procrastinação (Prokrastination), muitas vezes, é uma forma de defesa do ego, uma maneira de nos protegermos diante do mundo exterior e das complexidades internas de nossa existência. As oscilações e dúvidas que impactam o ego podem desencadear esse comportamento, resultando em uma resposta protetiva. O termo é oriundo do latim procrastinatus: pro- (à frente) e crastinus (de amanhã). Em definição a procrastinação envolve a prática de adiar a realização de tarefas, transferindo atividades para um momento futuro em vez de abordá-las no presente. Ou seja, “Procrastinar é o comportamento de adiar tarefas, de transferir atividades para "outro dia" que não o atual; deixar de fazer algo ou - ainda - interromper o que deveria ser concluído dentro de um prazo determinado” (Hamasaki & Kerbauy, 2001).

Qual a dificuldade com essa defesa? É que essas defesas nem sempre são positivas para o nosso bem-estar geral, frequentemente causando caos em outras áreas da nossa vida. A ideia de fundo é que, em face de ansiedades, incertezas ou conflitos internos, as pessoas podem adiar tarefas como uma forma de autopreservação ou proteção do ego. A resolução desses conflitos subjacentes é frequentemente considerada uma abordagem para superar a procrastinação.

Muito embora, não haja uma abordagem direta na psicologia clássica sobre a procrastinação, há sim um tratamento feito, a latere, por vários teóricos como por exemplo, Sigmund Freud, Carl Jung, entre outros, que abordaram temas relacionados à psicologia da personalidade, defesas do ego e comportamentos evasivos, mas, é claro, sem um tratamento explícito da procrastinação em seus escritos.

Dessa forma, a ideia da procrastinação como uma forma de defesa do ego é uma interpretação contemporânea que se baseia em conceitos mais amplos desses teóricos sobre os mecanismos de defesa psicológicos. A aplicação específica da procrastinação como um exemplo desse fenômeno pode ser encontrada em trabalhos e interpretações mais recentes na psicologia. Por exemplo, podemos perceber essa leitura teórica em autores como Timothy A. Pychyl, que escreveu sobre a psicologia da procrastinação, ou Piers Steel, conhecido por suas pesquisas sobre o tema, são alguns dos acadêmicos que contribuíram significativamente para a compreensão contemporânea da procrastinação.

 

Portanto, lidar terapeuticamente com a procrastinação envolve abordar as razões subjacentes que fazem o ego oscilar ou duvidar. Ao resolver esses motivos formativos, as defesas procrastinatórias tendem a se dissipar. Suprimir as fontes de insegurança ou incerteza é uma abordagem eficaz para superar a procrastinação e permitir um fluxo mais suave em diversos níveis e dimensões de nossa existência. Pense nisto. SDG.

Dr. Marcus King Barbosa – Psicanalista Clínico, Psicoterapeuta Integratista, Filósofo e Teólogo Público e Doutor em Filosofia


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

lições da morte de Sansão

  Pregamos hoje sobre a morte de Sansão ( Shimshon ). Personagem ambíguo esse Sansão. Vida marcada indelevelmente por contrastes; nesse sentido, não muito distinta da nossa. Fato é que Sansão viveu uma vida de profundas negações de sua vocação como nazireu ( n´zer ). Não manteve em concretude seus votos; ao contrário se arrojou em uma busca celerada de experiências e desejos (Jz 14. 8-9; 16.1).  Essa trajetória descomprometida de Sansão ganha seus contornos finais na traição de Dalilá, a medida que em ele revela-lhe seu ‘segredo’, o que lhe fazia o homem poderoso que era, a resposta da sua extraordinária força física, que de imediato é por ela aproveitado e o poderoso Sansão é subjugado, vencido e humilhado com a cegueira e escravidão (16.17-21).  Outrossim, na minha mensagem destaquei que toda vida infiel da Sansão é alterada na vivencia da sua morte. Nela Sansão vive em nível integral uma existência que deveria ter pontuado todo seu existir (16.28-30). Na sua partida, a...

ENTENDENDO E LIDANDO COM O CONSUMO DE COMPRAR

  Nossas ações e reações são resultados de nossos compromissos valorativos, lu seja, nossa indústria de valores. Afirmo então, que nosso comportamento é uma afluente das nascentes dos nossos: desejos, pensamentos, sonhos... Dito isso, o consumo exacerbado, compulsivo, patológico , a tal da “mania” de comprar é fruto de uma reação subjetiva do nosso Self às circunstâncias desagradáveis, situações perturbadoras, relações abusivas, enfim, todas emocionalmente significativas e angustiantes. Aqui estabeleço sem dúvidas que o impulso qualificado de consumir é um mecanismo de defesa do ego . Tem formação clinicamente reativa. Aqui precisamos conceituar o que seja o papel dos pensamentos obsessivos. Estes tem o condão de elevar de maneira catastrófica os níveis de ansiedade dentro do indivíduo, que impõe ao cérebro a execução de vários mecanismos de execução que estabeleçam o alivio da tensão gerada pelos pensamentos obsessivos. Aí entra o consumismo compulsivo por comprar. Desse ...

Possibilidades da angústia na terapia

  Jacques Lacan enunciou que: o paciente não sente angústia por falar na terapia, sente angústia por ter que escutar o que disse . Aqui temos uma grande oportunidade de ouvir no site analítico a instancia do simbólico, na figura do in-consciente e seu trabalho de garimpagem trazendo a superfície o que está no universo submerso de nosso self ou que foi para lá e está retornando. Quais seriam essas oportunidades? Primeiro a possibilidade de exteriorização do saber que não-se sabe a medida que se escuta o que se diz. Ou seja, toda vez que nos expressamos em terapia, estamos diante da oportunidade de trazer à tona conteúdos profundos de nossas profundezas e zonas abissais. Desse modo, a angústia brota não em está falando, mas sim em está se ouvindo, a surpresa da escuta. Segundo a possibilidade de enfrentamento das áreas cinzentas nebulosas de nosso caráter , sorvendo verdadeira transformação que ocorre quando somos capazes de encarar aquilo que emerge desse processo, enfrentando ...